Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

Já não tenho pressa

Já não tenho pressa, a certeza me diz que chegarei sempre ao mesmo lugar, aonde todos nós repudiamos até em pensamento.
Já não tenho pressa, correr para quê, antecipar o sofrimento? Em nossos corações não há mais espaços, o loteamento está feito, a coisificação dos espaços, a disputa pela propriedade, a falta de sensibilidade, a covardia, tudo nos remete ao momento inicial, ao fruto proibido, a caixa de pandora, ao desejo do conhecimento, o querer saber sempre, o não saber dizer não...
Já não tenho pressa, o sofrimento é passageiro como também é a vida, o espírito é algo abstrato e duvidoso como também o é Deus...
Já não tenho pressa, se nem mais acredito no que meus próprios olhos me dizem, o que enxergo pode ser mera ilusão, fantasia, sonho, menos realidade.
Já não tenho pressa, pois a realidade é mera ficção e a ficção é mera realidade.
Ter pressa pra quê? Você consegue explicar?

Sábado, 27 de Dezembro de 2008

A morte pelo óbvio

Alexandre morreu perfurado de óbvio e sua morte silenciou de vez o obtuso...

Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

Amar

"Por que seria preciso amar raramente para amar muito?"
Albert Camus

Sábado, 7 de Junho de 2008

Eu poderia ter morrido alí, o mundo estava completo para mim

Apego-me ao passado.
Às vezes ontem já se configura em passado e desde cedo estou preso ao doloroso futuro de recordações.
Ainda há o passado distante no tempo, próximo das lembranças...
O frio daquela noite, o pré-porre antecipando os acontecimentos, a loucura do momento, o beijo ao ar livre, e que beijo, acho que o primeiro...
A música, a dança, outro beijo onde agora todos testemunhavam, não era mais escondido...
Eu poderia ter morrido alí, o mundo estava completo para mim...

Sábado, 12 de Abril de 2008

Seu Antônio

Seu Antônio é uma pessoa bem simples. Olhar profundo, do tipo que reflete na falta do brilho o peso das dificuldades que a vida sempre foi para ele. Mas como reflete se não há brilho? Coisas da alma, caro amigo... E se observá-lo atentamente, pode-se perceber a leve curvatura de seu corpo, leve de se observar, mas extremamente pesada em seus significados.



Estudou até a quarta série e parou... Casou-se... Teve sete filhos... E foi calculando as metragens, de obra em obra, ora carregando cimento, ora acertando arestas que foi levando a vida. Bom observador, aprendeu a medida das coisas abstratas, dos sentimentos humanos, da discórdia, da discriminação por causa de sua origem e de sua cor. Hoje orgulha-se em dizer que nunca permitiu que um filho carregasse uma lata de cimento, nem para ele, nem para qualquer um. "Quero um futuro melhor para eles".



Voltou a estudar, curso noturno, sempre acompanhado pelo cansaço físico e emocional. Completou até a sétima série. Não deu conta de terminar a oitava. Faltava pouco. Mas por sua experiência de vida e por sua habilidade no trabalho, foi chamado para trabalhar em uma cidade próxima. A vontade de estudar permaneceu, mas o que muitos chamam de "capitalismo" venceu.



Na reunião de pais, muito preocupado com seu filho mais novo, seu Antônio deu depoimento de vida e com extrema habilidade e profunda sensatez, disse para outros alunos, filhos de outros pais, pais e professores, que ao longo de seu caminho pela vida, ele descobriu que todos os acessos no conduzem para a individualidade. "O mundo é individual e todos nós estamos sozinhos. O que pude fazer pelos meus filhos eu fiz, mas no íntimo, estamos todos sozinhos. Aproveitem a oportunidade agora para estudar".



Extremamente duro, porém, com delicadeza de pai, fez com que todos ali naquela sala, se emocionassem profundamente...

Quinta-feira, 10 de Abril de 2008

Isso acontece sempre...

Vivemos, as vezes ou quase sempre, para ou pelas lembranças que guardamos a sete chaves ou cultivamos em jardins abertos a obervação de todos. Délio, um amigo de infância, contou-me, enquanto eu dava uma carona, que suas lembranças são, ao mesmo tempo, fonte de prazer, tristeza, conflito, harmonia e certeza de solidão. Enquanto dirigia pela estrada de Sabará, fiquei mentalmente organizando minhas lembranças, colocando-as em seus devidos lugares, talvez pretendidos apenas por mim. Enquanto ele falava, de súbito o interrompi com a seguinte frase: "Talvez depois da morte possamos resgatar todas essas lembranças, habilitando-as a liberdade". Com olhar atônito, Délio exclamou quase em sussurro: "ou talvez a dependência absoluta de nossas vontades egoísticas"... ficou apenas o som dos pneus traçando suas linhas no asfalto...

Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Isso aconteceu em meados da década de setenta

Lembro-me das manhãs frias e chuvosas. Sair da cama naqueles dias era uma tarefa que parecia impossível. Em uma destas manhãs, logo depois de me arrastar da cama e parar na sala sem saber como, vi pela janela uma coluna de fumaça preta, que parecia vir da direção da escola onde estudava. No fundo do meu ser desejei que fosse realmente ela e fiquei feliz por isso. Comentei com meu pai e ele me condenou com aquele olhar, sobrancelhas levantadas, frisos na testa e o canto da boca esticado, pronto para me dar uma bronca. Foi uma maldade para o bem, o meu bem estar, não queria ir à aula. Na verdade, era o Pão de Açúcar Jumbo que estava em chamas... Isso aconteceu em meados da década de setenta. Fui à aula naquele dia e em muitos outros também. E hoje, são essas aulas que me sustentam...

Sábado, 23 de Fevereiro de 2008

Ora verde, amarelo, vermelho

Por um breve momento, pude acreditar na capacidade de controlar o tempo. Cada luz que se acendia provocava um efeito sombra/luz diferenciado, fazendo com que minha visão percebesse nuances diferentes em cada parede do apartamento.

O amor é um jogo feito para se perder sempre. Enquanto tentamos parar o tempo, conseguir uns segundos a mais para pensarmos melhor, os ponteiros já deram conta de toda a casa.

Passei boa parte da noite observando a janela. O sinal de trânsito combinava as cores num rítimo constante. Ora verde, amarelo, vermelho. Noutra, vermelho, verde, amarelo. Os carros passavam sem notar que eu os observava. A luz avermelhada dos postes dava um tom nostáugico as ruas.

Quando fui embora naquele dia, saíndo por uma porta e retornando por outra, quis cercar de possibilidades nossos encontros. Mal sabia eu que ficaria por muitos anos com este olhar perdido, cansado e sem esperanças...

Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

I want to fly, and never come down

Quando a porta se abriu meu coração parecia saltar do corpo. Talvez tenha saltado, em fração de segundos posso tê-lo perdido, mas seu abraço o sustentou em seu devido lugar. Ouvi sinos, harpas, valsas, orquestras e todo tipo de música possível naquela confusão de sentimentos que me arrebatava de forma incondicional. O fechar da porta, o sorriso sem jeito, os lábios que se tocavam, o roçar dos corpos, o bailar dos passos, nada, mas nada pôde com aquele coração em disparada. “Oh yeah, your skin, turn into something beautiful, do you know? You know I love you so”.

O sorriso continuou em meus lábios por muitas horas e meus olhos brilhavam de felicidade. Ofereci vinho, ofereci carinho, ofereci amor... Quis acompanhar sua dor, segurar suas lágrimas, abraçar seu corpo quando cansado, sustentar-te quando sozinha... "Look at the star, look how they shine for you”.

Mas o que foi que eu disse?! Acho que fui tão estúpido e egoísta. “I lost my head, the thought of all the stupid things I’d Said, and I never meant to cause you trouble, I never meant to do you wrong, and ah, well if I ever caused you trouble, Oh, no I never meant to do you harm”.

Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

Deixar minha mente se perder por aí...

O sol ainda se mantém forte, apesar das horas avançarem por meu relógio de pulso, são 19h30min. As vidraças dos prédios mais próximos refletem os raios do sol, que invadem minha sala, no décimo primeiro andar. Ouço Kings of Convenience, Weight Of My Words, repetidas vezes ou o suficiente para esvaziar minha alma.

Apertada entre as silhuetas dos prédios, vejo uma torre de igreja, tentando respirar entre o desassossego do concreto a sua volta. O céu ainda azul abriga algumas nuvens amareladas, espaçadas, que divagam sob o firmamento.

Acho que vou descer para fumar um cigarro. Andar um pouco sem rumo. Sentir o cair da tarde que invade indecorosamente a noite. Deixar minha mente se perder por aí...